Advogado investigado possui seis propriedades em ilhas de Angra dos Reis
Willer Tomaz, sob investigação no STF com senador Flávio Bolsonaro, detém seis imóveis em ilhas de Angra dos Reis. Compras ocorreram durante tramitação de proje...

Investimentos imobiliários em Angra dos Reis
O advogado Willer Tomaz, alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) juntamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por suspeitas de lavagem de dinheiro, possui seis propriedades localizadas em ilhas de Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro. Além da residência que se tornou centro de disputa com o jogador Richarlison, Willer Tomaz expandiu significativamente seu portfólio imobiliário na região durante período estratégico para seus interesses comerciais.
Cinco das seis propriedades de Willer Tomaz em Angra dos Reis foram adquiridas entre 2021 e 2022, coincidindo com a apresentação, por parte de Flávio Bolsonaro, de iniciativas legislativas para estimular empreendimentos na região. Essa simultaneidade entre as compras e as propostas tem despertado questionamentos sobre possíveis relações entre os investimentos imobiliários e as medidas legislativas apresentadas pelo senador.
Cronologia das aquisições e projetos legislativos
A primeira proposta apresentada por Flávio Bolsonaro foi o Projeto de Lei Complementar nº 157/2021, introduzido em 13 de outubro de 2021, visando formar uma Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento Sustentável (Rides) abrangendo Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty. O projeto busca estimular o turismo, a economia e a preservação ambiental, além de autorizar a municipalização de unidades de conservação federais e estaduais, flexibilizando as regras para exploração econômica da área.
Apenas quinze dias antes dessa apresentação, precisamente em 28 de setembro de 2021, Willer Tomaz adquiriu três propriedades na Ilha Comprida por intermédio de sua empresa WT Administração de Imóveis e Bens. Essas três primeiras aquisições totalizavam aproximadamente 389,8 mil metros quadrados, com valor patrimonial registrado de R$ 13,8 milhões.
Flávio Bolsonaro também atuou como relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das Praias no Senado Federal. Esse texto propõe permitir a privatização das ilhas marítimas do país, que atualmente pertencem à União. Foi designado relator em abril de 2022, quando elaborou dois relatórios para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) prevendo excluir as ilhas da lista de bens da União. Na prática, essa mudança permitiria que os ocupantes privatizassem essas propriedades.
Detalhamento das seis propriedades
As propriedades de Willer Tomaz distribuem-se entre três ilhas principais. Na Ilha Comprida, localizam-se quatro terrenos distintos, todos adquiridos em diferentes datas e com valores patrimoniais variados. O primeiro terreno, com 175,2 mil metros quadrados, foi comprado em setembro de 2021, registrando valor patrimonial de R$ 5,7 milhões. O segundo, com 32,8 mil metros quadrados, também adquirido em setembro de 2021, apresenta valor patrimonial de R$ 2,1 milhões.
O terceiro terreno na Ilha Comprida possui 181,8 mil metros quadrados e foi adquirido igualmente em setembro de 2021, com valor patrimonial registrado de R$ 6 milhões. O quarto e mais controverso terreno na Ilha Comprida, com apenas 2,1 mil metros quadrados, foi comprado em julho de 2022, registrando valor patrimonial de R$ 2,9 milhões. Essa última propriedade é precisamente o imóvel que se tornou objeto de disputa com o jogador Richarlison.
Na Ilha do José André, Willer Tomaz adquiriu terreno de 57,3 mil metros quadrados por intermédio da empresa Friponor Brasil Turismo, Empreendimentos e Participações, em 2008. Esse imóvel apresenta valor patrimonial registrado de R$ 23,7 milhões, diferenciando-se dos demais por ter sido adquirido em período anterior.
Além dessas cinco propriedades, Willer Tomaz detém cotas de uma sexta casa localizada na Ilha do Jorge, registrada em nome da empresa Real Estate Duo 4, que integra o grupo Prime You. Conforme informações obtidas, o advogado adquiriu participação de 25% nessa propriedade em 2022.
Contexto governamental e planos para Angra dos Reis
Os planos para transformar a Costa Verde do Rio de Janeiro em destino turístico de grande envergadura originam-se do governo de Jair Bolsonaro. Em maio de 2019, o então presidente afirmou sua intenção de transformar Angra dos Reis em uma nova Cancún, ressaltando que a região poderia gerar bilhões de reais anualmente em receitas turísticas se houvesse flexibilização das restrições ambientais impostas pela Estação Ecológica de Tamoios.
Sob a administração Bolsonaro, a Secretaria de Patrimônio da União (SPU), órgão responsável pela gestão das ilhas federais, estava subordinada ao governo federal. Essa configuração administrativa coincide com o período de processamento acelerado dos pedidos de regularização de Willer Tomaz e, simultaneamente, com a não-análise dos pedidos apresentados por Richarlison.
O caso da disputa com Richarlison
O atacante Richarlison de Andrade, jogador do Tottenham e integrante da Seleção Brasileira, publicou vídeos em 17 e 21 de outubro denunciando envolvimento de Flávio Bolsonaro na disputa pelo imóvel de luxo localizado na Ilha Comprida. Os vídeos alcançaram milhões de visualizações durante o processo eleitoral de 2022, influenciando inclusive os debates presidenciais na Globo.
De acordo com Richarlison, ele ocupava a casa desde 2020 e investiu R$ 10 milhões no local através de sua empresa Sport 70. O jogador afirmou que investiu em melhorias significativas, incluindo uma cachoeira que deságua no mar. Segundo sua versão, após visita de Flávio Bolsonaro à propriedade e recusa em vendê-la, o senador se aliou a Willer Tomaz para obter os direitos sobre o imóvel.
A cronologia administrativa revela diferenças significativas no tratamento dos pedidos. A empresa Sport 70 solicitou regularização à SPU em 20 de setembro de 2021, mas o processo não teve andamento. Já o processo de regularização iniciado por Willer Tomaz começou em 5 de maio de 2022, quando a M Locadora de Veículos solicitou regularização de ocupação que remontava à década de 1980.
O diferencial temporal é notório: em 11 de julho de 2022, o pedido de Certidão de Autorização para Transferência (CAT) foi apresentado às 11h33 e atendido pela SPU às 13h13 do mesmo dia. Posteriormente, a M Locadora transferiu o imóvel para a WT Administração de Imóveis e Bens, de propriedade de Willer Tomaz, consolidando a aquisição da propriedade.
Projeto de resort na Ilha do José André
Na Ilha do José André, localizada dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios, Willer Tomaz apresentou projeto para construção de resort de luxo. O empreendimento incluiria piscinas, beach club, spa, restaurante, área para eventos, hangar e heliponto, representando investimento significativo na região.
Para expandir a área construída, o advogado protocolou pedido junto ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) em 20 de março de 2026, coincidindo com a data em que o então governador Cláudio Castro publicou decreto revogando planos de manejo de áreas de proteção ambiental. Cláudio Castro posteriormente negou ter discutido previamente o conteúdo do decreto com Willer Tomaz, afirmando que a medida possuía caráter geral e técnico.
O decreto foi posteriormente derrubado pelo desembargador Ricardo Couto, que assumiu o governo estadual, impedindo o avanço do empreendimento de Tomaz na ilha.
Investigações e posicionamentos
Willer Tomaz foi investigado no STF por suspeitas de lavagem de dinheiro em inquérito que também envolve o senador Flávio Bolsonaro. Questionado sobre eventuais projetos comerciais em suas ilhas e sobre possível relação com as propostas legislativas de Flávio Bolsonaro, o advogado não se manifestou publicamente.
Tomaz mudou-se para os Estados Unidos em agosto deste ano, após ser alvo de operação da Polícia Federal. Flávio, por sua vez, deslocou-se para a Flórida dois dias após sofrer derrota no segundo turno das eleições presidenciais para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ambos confirmam ser amigos, mas negam manter negócios conjuntos. Relativamente à disputa com Richarlison, Tomaz sustenta que o jogador pagou a posseiros quando adquiriu a casa, e não à proprietária de direito. O advogado apresenta escritura registrada do imóvel, certidão da SPU e decisões favoráveis na Justiça, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Preocupações com privatização da costa brasileira
Em setembro de 2024, já durante o governo de Lula, a SPU emitiu nota técnica manifestando-se contrária à aprovação da PEC das Praias. Para o órgão, o texto favorece amplamente as condições jurídicas para a apropriação indevida de toda costa brasileira em benefício da população mais abastada do país, caracterizando prática conhecida como grilagem.
Conforme a Constituição Federal, as ilhas são bens da União. Empresas e indivíduos podem ocupá-las mediante processos de aforamento ou de ocupação registrados junto à SPU. Essas ocupações podem ser revistas pela SPU, garantindo controle estatal sobre o patrimônio público.
