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Paraguai: crise no Ueno Bank força renúncia de presidente do BC

Entenda a crise do banco digital Ueno no Paraguai, que levou à renúncia do presidente do Banco Central e aumentou pressão sobre o governo de Santiago Peña.

Paraguai: crise no Ueno Bank força renúncia de presidente do BC
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Crise do Ueno Bank força saída de autoridade monetária

A crise do Ueno Bank no Paraguai provocou uma profunda instabilidade institucional, levando à renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do país, na terça-feira (3). O colapso da instituição financeira digital, que concentra aproximadamente 3 milhões de clientes e funciona como maior emissora de cartões de crédito nacional, acelerou uma cascata de consequências políticas e regulatórias que atingem diretamente o governo do presidente Santiago Peña.

O banco digital enfrentava severos problemas financeiros que se agravaram após ajustes contábeis. Seu índice de solvência, medida crítica da capacidade de uma instituição honrar suas obrigações, caiu para menos de 50% do patamar mínimo regulamentado. Essa deterioração rápida das métricas de saúde financeira disparou alertas entre autoridades reguladoras e forçou intervenções emergenciais do Banco Central.

Investigações criminais e proteção de depositantes

Diante da magnitude da crise, o Banco Central acionou procedimentos especiais destinados a proteger os depositantes e prevenir danos sistêmicos ao mercado financeiro paraguaio. Simultaneamente, o Ministério Público iniciou investigação criminal sobre as operações do Ueno, resultando na prisão de oito indivíduos associados à instituição.

As autoridades investigavam suspeitas de que o banco teria financiado indiretamente a alienação de uma carteira de ativos pertencente a empresa vinculada ao Grupo Vázquez, entidade controladora da instituição. O Ueno negava sistematicamente a ocorrência dessa operação, criando tensão entre reguladores e a administração bancária.

Impactos diretos sobre cidadãos e setor público

A crise do Ueno Bank gerou consequências imediatas para milhões de paraguaios. O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo benefícios previdenciários gerenciados pelo instituto de seguridade social IPS e outros fundos de pensão governamentais. Quando as agências fecharam suas portas na terça-feira, clientes encontraram-se impedidos de acessar suas economias, gerando situação particularmente crítica para aposentados dependentes de benefícios depositados naquela instituição.

Manuel Cáceres, residente em Ñemby nas proximidades de Assunção, expressou a angústia compartilhada por inúmeros depositantes: "Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno. Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim." O relato ilustra o sofrimento cotidiano enfrentado pela população em consequência da falência institucional.

Resposta governamental e acordo legislativo

O presidente Santiago Peña anunciou um acordo com líderes parlamentares para acelerar a votação de projeto que autoriza mobilização do Fundo de Garantia nacional. Essa medida visa assegurar devolução de recursos públicos aos depositantes, especialmente valores mantidos por órgãos de previdência e fundos governamentais.

Peña enfatizou o caráter circunscrito da crise: "Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional." O presidente também determinou que responsáveis devem "responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios", buscando demonstrar comprometimento com accountability.

Conflitos de interesse e desgaste político

A situação revelou conflitos de interesse significativos envolvendo autoridades públicas. Carlos Carvallo, presidente do Banco Central que renunciou, havia comandado o próprio Ueno até agosto de 2023. Essa trajetória profissional anterior suscitou críticas parlamentares sobre potencial falta de independência na supervisão.

Santiago Peña, por sua vez, mantinha ligações diretas com o Grupo Vázquez, grupo controlador do Ueno. O presidente foi sócio dessa entidade até março de 2025, circunstância que alimentou suspeitas sobre favorecimento regulatório e supervisão inadequada. Essas conexões pessoais e comerciais minaram a confiança pública nas instituições de fiscalização.

Consequências para reputação internacional

A crise do Ueno Bank prejudicou a imagem do Paraguai como destino confiável para investimento estrangeiro na América do Sul. O país havia cultivado posicionamento como economia emergente atrativa para capital internacional, particularmente proveniente do Brasil. A falência de major instituição financeira digital ameaça essa percepção de estabilidade institucional e solidez regulatória.

Os mercados responderam imediatamente à crise. Títulos em dólar do Ueno com vencimento em 2031 sofreram pressão significativa, assim como os títulos de dívida do Paraguai, refletindo preocupações mais amplas sobre risco soberano e saúde do sistema financeiro nacional.

Trajetória do Ueno e lições sobre supervisão

Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o Ueno evoluiu rapidamente de fintech local de nicho para banco de médio porte, replicando trajetória semelhante à de plataformas digitais globais como Monzo e Nubank. Essa expansão acelerada, no entanto, não foi acompanhada de supervisão regulatória proporcional, permitindo o acúmulo de riscos não identificados oportunamente.

Segundo o Banco Central, a Superintendência de Bancos nomeará auditores especializados para verificar a situação dos ativos do Ueno e quantificar perdas. Autoridades reiteraram que o caso constitui situação isolada, não indicando problemas sistêmicos mais amplos no setor financeiro paraguaio, embora essa interpretação seja contestada por críticos que apontam supervisão deficiente.

Saída de Carvallo e restauração de credibilidade

Carvallo informou que permaneceria no cargo durante procedimentos de resolução da crise, mas posteriormente apresentou renúncia. Argumentou que sua saída contribuiria para reduzir controvérsia envolvendo o Banco Central, permitindo que a instituição trabalhasse sem disputas políticas e pressão midiática excessiva. A decisão refletiu reconhecimento de que sua permanência havia se tornado obstáculo à credibilidade institucional.

Os parlamentares já demandavam sua saída após rejeitarem relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto. Essa rejeição legislativa indicava perda de confiança na capacidade de Carvallo conduzir investigação imparcial, dado seu histórico profissional anterior na própria instituição que supervisionava.

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