Colômbia divide-se entre Cepeda e De la Espriella no segundo turno eleitoral
Confira quais modelos de governo Cepeda e De la Espriella representam na eleição colombiana. Análise completa dos projetos políticos em disputa.
Os dois projetos políticos em confronto
A eleição para a Presidência da Colômbia neste domingo (21 de junho) coloca frente a frente dois projetos radicalmente opostos. De um lado, Abelardo de la Espriella, advogado com discurso conservador que avança para o segundo turno, enquanto do outro está Ivan Cepeda, senador e filósofo alinhado à esquerda progressista. A disputa entre Cepeda e De la Espriella reflete as profundas divisões que marcam a sociedade colombiana há mais de uma década.
Desde o primeiro turno eleitoral, ficou evidente a proximidade entre os candidatos. De la Espriella obteve 43,7% dos votos contra 40,9% de Cepeda, indicando uma competição equilibrada que se refletirá novamente neste segundo turno. Ambos os candidatos carregam visões distintas sobre como conduzir a nação, abarcando desde políticas econômicas até temas de segurança e direitos sociais.
A polarização regional que define a Colômbia
A fragmentação territorial colombiana não é um fenômeno recente. Desde 2016, quando um plebiscito sobre o acordo de paz com as Farc dividiu a população, o país vem apresentando padrões de votação consistentes. As regiões periféricas, incluindo litorais, Amazônia e fronteira com a Venezuela, tendem a votar pela esquerda, enquanto as regiões centrais, atravessadas pelos Andes, favorecem candidatos de direita.
Segundo especialistas consultados, essas divisões não são meramente políticas. Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario, aponta que as regiões periféricas que votam pela esquerda coincidem com algumas das áreas mais pobres e excluídas do país. Adicionalmente, são territórios frequentemente impactados pela violência e pelo controle de grupos armados que disputam rotas de narcotráfico, aproveitando-se da limitada presença estatal.
O Pacto Histórico, partido de Cepeda, obteve seus melhores resultados nas áreas periféricas durante o primeiro turno, investindo em políticas de inclusão voltadas para afro-colombianos e comunidades indígenas. Essa estratégia reflete uma aposta clara na consolidação de seu projeto político junto aos setores historicamente marginalizados.
Diferenças econômicas enraizadas territorialmente
As distinções entre regiões periféricas e centrais vão além da política. O centro colombiano funciona sob um sistema agroindustrial integrado às cidades, enquanto nas periferias predomina uma economia extrativista. Esses fatores estruturais geraram uma divisão territorial profunda que se manifesta nas escolhas eleitorais.
Nas grandes cidades como Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla, as dinâmicas são mais complexas. Contudo, observa-se que os estratos de renda mais baixa tendem a favorecer Cepeda, enquanto os de renda média e alta preferem De la Espriella. Essa diferenciação econômica está diretamente relacionada aos programas propostos por cada candidato.
Propostas econômicas contrapostas
As agendas econômicas de Cepeda e De la Espriella não poderiam ser mais distintas. De la Espriella propõe reduzir o tamanho do Estado e diminuir impostos para empresas, alinhando-se com uma lógica liberal de mercado. Já Cepeda aposta em aumentar o papel do Estado, transformar o campo em motor nacional de desenvolvimento e apoiar pequenas empresas através de políticas redistributivas.
Esses projetos refletem concepções diferentes sobre o papel do Estado na economia. Enquanto De la Espriella busca uma abordagem similar aos governos de Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador e alinhada com políticas de Donald Trump nos Estados Unidos, Cepeda propõe continuidade com as políticas progressistas do presidente Gustavo Petro.
Heranças históricas e realinhamentos políticos
O historiador Felipe Arias Escobar identifica nas preferências eleitorais atuais ecos de divisões históricas que remontam ao século XIX, quando o Partido Conservador dominava as regiões andinas e o Partido Liberal tinha força nos litorais. Embora esses partidos tenham perdido protagonismo, suas bandeiras são retomadas por movimentos contemporâneos.
Setores que historicamente votavam no Partido Conservador, depois no ex-presidente Álvaro Uribe, agora simpatizam com a versão colombiana das direitas populistas representada por De la Espriella. De forma paralela, eleitores que antes apoiavam o Partido Liberal ou o ex-presidente Juan Manuel Santos migraram para candidatos de esquerda como Cepeda e Petro.
Esses realinhamentos indicam que os eleitores colombianos não são meramente mecânicos em suas escolhas. Cidadãos que votaram em Uribe em 2006 optaram por Petro em 2018, demonstrando uma volatilidade e diversidade de motivações eleitorais que supera simples categorias políticas.
O impacto das manifestações de 2021
Um evento crucial moldou o cenário político atual. Em 2021, durante o governo do conservador Iván Duque, explosões sociais eclodiram contra o modelo econômico, a injustiça social e a política tradicional. Essas manifestações, que registraram episódios de violência e repressão estatal criticada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, deixaram marcas profundas na sociedade.
Os ecos daquele movimento ainda reverberam nestas eleições. Um novo grupo de cidadãos, com demandas identitárias e novas formas de participação política que se visibilizaram durante a explosão social, agora se choca com movimentos de reação representados por De la Espriella. Analistas vinculam parte do voto em Petro e Cepeda a esse movimento, enquanto atribuem o fenômeno de De la Espriella a uma recomposição das direitas que busca conter esse impulso de nova cidadania.
Identidades políticas menos estáticas
Contrariamente ao século XX, quando identidades políticas eram mais fixas e refletiam uma cosmovisão completa, as preferências eleitorais colombianas contemporâneas são voláteis. Juan Fernando Giraldo, especialista em opinião pública e marketing político, observa que nos anos 1940 e 1950, dizer-se conservador ou liberal significava compartilhar uma identidade integral que abarcava valores, interesses e família.
Atualmente, essa rigidez desapareceu. Colombianos apresentam diferentes apetites por figuras de autoridade, combinando valores católicos com demandas por transformação social. Essa inconsistência aparente revela uma sociedade mais complexa do que as narrativas de polarização simples sugerem.
O papel central da autoridade e dos valores religiosos
De la Espriella centra sua campanha na autoridade e nos princípios religiosos cristãos, argumentando que essas posições trarão segurança e moralidade. Considerando que 80% da população colombiana se identifica como católica e 10% como cristã, poderia-se esperar uma vantagem automática para candidatos conservadores.
Contudo, essa lógica matemática não corresponde às dinâmicas eleitorais reais. A afiliação religiosa não determina mecanicamente o voto político em uma sociedade cujos valores e prioridades passam por constante recalibração.
O eleitorado não polarizado
Um grande bloco cidadão apresenta posições menos intensas sobre questões políticas. Esses eleitores não acreditam fortemente em se a autoridade do Estado deve ser maior, conforme propõe De la Espriella, ou mais ampla, como sugere Cepeda. São frequentemente pessoas que se informam menos e se expressam com menor frequência nos debates públicos.
Esse contingente indica que grande parte do eleitorado pode votar em candidatos radicalmente diferentes sem necessariamente representar a Colômbia polarizada que aparece nas cédulas eleitorais. As narrativas de divisão profunda, embora parcialmente válidas, simplificam excessivamente uma realidade mais matizada.
Questões mais tangíveis que ideologia
Nas cidades e no meio rural, conforme sustenta Giraldo, as conversas entre cidadãos raramente focam em categorias abstratas de esquerda ou direita. Em vez disso, surgem preocupações sensíveis e imediatas: segurança, emprego, educação e acesso a serviços básicos. Essa cidadania fluida muda facilmente de preferências conforme suas necessidades evoluem.
O marketing de De la Espriella explorou eficazmente mensagens sobre família, autoridade e combate firme ao crime. Igualmente, a aposta da esquerda em se unificar em torno de Petro traduziu-se em elevada intenção de voto para Cepeda, frequentemente refletindo admiração pelo presidente mais que identificação genuína com ideologia esquerdista.
A eleição entre Cepeda e De la Espriella não representa apenas uma escolha entre esquerda e direita, mas uma decisão sobre qual modelo de gestão e quais prioridades definirão o futuro colombiano. Independentemente do resultado, os vencedores enfrentarão uma sociedade diversa cujas motivações transcendem narrativas simplistas de polarização.
