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Mulher desaparecida na ditadura chilena é encontrada viva 50 anos depois

Bernarda Vera Contardo, declarada desaparecida na era Pinochet, é encontrada viva na Argentina após 50 anos. Confirmação por teste de DNA revela verdade sobre v...

Mulher desaparecida na ditadura chilena é encontrada viva 50 anos depois
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Uma história que desafia cinco décadas de silêncio

Bernarda Rosalba Vera Contardo, uma mulher declarada desaparecida na ditadura chilena há mais de 50 anos, foi encontrada viva na Argentina. A descoberta, confirmada oficialmente através de análise de DNA em julho de 2025, revelou um dos casos mais surpreendentes relacionados às violações de direitos humanos durante o regime de Augusto Pinochet. A mulher, que atualmente tem 80 anos, construiu uma vida inteira longe do Chile, passando pela Argentina, Suécia e retornando à América do Sul, enquanto era considerada uma das aproximadamente 1.469 vítimas de desaparecimento forçado documentadas no Relatório Rettig.

Os fatos registrados oficialmente

Em 1973, Bernarda Vera tinha apenas 27 anos quando seu paradeiro foi perdido, pouco após o golpe de Estado que levou Augusto Pinochet ao poder. Naquela época, ela trabalhava como professora em uma escola pública de Puerto Fuy, localizada no Complexo Madeireiro e Florestal Panguipulli, na região de Los Ríos, no sul do Chile. Seu desaparecimento foi registrado em 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, segundo documentos oficiais.

A versão oficial registrada na história chilena indicava que Bernarda Vera havia sido detida por militares e supostamente executada junto com outras 15 pessoas. Segundo o Relatório Rettig, publicado em 1991, ela teria sido morta na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, com seu corpo supostamente arremessado nas águas. Este relatório, elaborado pela Comissão da Verdade e Reconciliação formada em 1990, documentou as atrocidades do período ditatorial e incluiu Vera como uma das vítimas de desaparecimento forçado.

A Comissão recebeu testemunho dos pais de Bernarda Vera, que haviam relatado o desaparecimento de sua filha pouco antes do golpe. Os documentos indicavam que militares agiram em grupos coordenados, reunindo-se em Coñaripe e seguindo para Villarrica, onde supostamente executaram os prisioneiros. A filha de Vera, que tinha apenas cinco anos em 1973, permaneceu no Chile sem saber do verdadeiro destino de sua mãe.

A versão alternativa que desafia a história oficial

As primeiras evidências de que a versão oficial poderia estar incorreta surgiram décadas depois, através do testemunho de companheiros de militância de Bernarda Vera. José Manuel Bravo, ex-membro do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR), documentou em arquivo do Museu de Neltume que um grande grupo de pessoas conseguiu escapar dos militares em outubro de 1973 e fugiu para as montanhas.

Bravo afirmou que Bernarda Vera, conhecida pelo pseudônimo "Anita" dentro da organização, estava entre os que conseguiram se evadir. Segundo seu relato, ela permaneceu nas montanhas até dezembro de 1973, dois meses após a data oficial de sua suposta detenção. Bravo descreveu-a como "uma mulher magra, mas de uma vitalidade que permitia a ela suportar a vida caminhando nas montanhas", capaz de enfrentar "todos os rigores de caminhar pela montanha, com milhares de milicos na sua cola".

Acredita-se que por volta daquela época, Bernarda Vera conseguiu escapar clandestinamente do Chile para a Argentina, com auxílio de Svante Grände, um membro do MIR de origem sueca. Seu trajeto subsequente levou-a pela Argentina e depois para a Suécia, onde recebeu seu primeiro visto e autorização de residência em 1978. Na Suécia, ela reconstruiu completamente sua vida, casou-se novamente, teve filhos e obteve cidadania sueca em 1984. No final da década de 1990, ela retornou à Argentina, onde permanecia quando foi localizada.

A descoberta e confirmação científica

Em meados de 2024, a emissora de televisão Chilevisión conseguiu localizar Bernarda Vera em um balneário de Miramar, ao sul de Buenos Aires. A descoberta causou comoção nas autoridades chilenas e entre organizações de direitos humanos. O ministro extraordinário para causas relacionadas aos direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre, ordenou um relatório pericial de DNA para confirmar a identidade da mulher encontrada.

Os antecedentes científicos foram comparados com o perfil genético e amostras dos familiares de Bernarda Vera disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile. O resultado foi conclusivo: a probabilidade de identificação atingiu 99,9999%, confirmando que se tratava efetivamente de Bernarda Vera Contardo. O teste foi realizado por meio de um tribunal de Mar del Plata, na Argentina, com consentimento da mulher encontrada.

O impacto emocional e familiar

Bernarda Vera conseguiu evitar os repórteres quando a equipe de imprensa da Chilevisión bateu em sua porta, mas seu filho Maximiliano concedeu declarações. Segundo a jornalista Florencia Valenzuela, que encontrou Bernarda Vera, a mulher afirmou que "sempre imaginou que este momento chegaria, que alguém a iria encontrar". No entanto, ela reafirmou sua determinação de não renunciar à vida que construiu e seu desejo de viver em paz, recusando-se a falar sobre seu passado.

A filha que Bernarda Vera deixou no Chile em 1973 agora tem 58 anos. Quando a equipe de jornalismo a contatou com a notícia de que haviam encontrado sua mãe viva na Argentina, ela inicialmente não acreditou. A filha havia procurado pela mãe por muito tempo e tinha a convicção de que "se sua mãe estivesse viva, teria entrado em contato com ela". A jornalista Valenzuela descreveu o encontro como "superdifícil", pois precisava informar à filha sobre o paradeiro da mãe enquanto ela lutava contra a incredulidade.

Apenas em 27 de julho de 2025, quando o ministro Álvaro Mesa confirmou oficialmente os resultados do teste de DNA para a filha, ela recebeu a confirmação definitiva de que sua mãe estava viva. A mãe de Bernarda Vera havia falecido após receber uma pensão de reparação a que tinha direito como familiar de uma vítima de violações de direitos humanos, e a filha também recebia benefícios por incapacidade vinculados ao status de vítima registrado.

As implicações políticas e judiciais

A confirmação de que Bernarda Vera não era uma prisioneira desaparecida abriu uma série de questões políticas delicadas no Chile. Membros da direita chilena, incluindo deputados apoiadores do presidente José Antonio Kast, exigiram que o Estado investigasse se foi configurado algum delito ou se os fundos de reparação foram recebidos de má-fé. A ação judicial sobre o caso foi aberta em 2009, quando o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior apresentou uma queixa, mas foi temporariamente arquivada em 2014 devido à impossibilidade de comprovar as circunstâncias do desaparecimento.

O advogado Vladimir Riesco, que apresentou a ação judicial, defendeu a boa-fé de todos os envolvidos, afirmando que a filha de Bernarda Vera "sempre agiu de boa-fé, pois não tinha antecedentes e só sabia o que estava no Relatório Rettig". Segundo Riesco, a filha nunca havia mantido contato com sua mãe desde 1973, embora tivesse conhecimento de relatos de amigos antigos da época. No entanto, esses eram "testemunhas auriculares" e nunca houve alguém que presenciasse a detenção.

O Plano Nacional de Busca, uma iniciativa promovida pelo governo do ex-presidente Gabriel Boric, entrou em contato com a filha em 2025 após constatar incongruências no caso. A reportagem da Chilevisión revelou que diversas autoridades do Estado tiveram conhecimento dessas incongruências por anos sem agir de forma diligente. O ex-policial Sandro Gaete, que fez parte do Plano de Busca, denunciou que autoridades governamentais tiveram evidências do caso já em 2024 e não as levaram à Justiça imediatamente, apesar de o Estado chileno contar com informações remontando a 2007.

Consequências e investigações em andamento

O governo de Gabriel Boric afirmou ter enviado os antecedentes oportunamente ao ministro Álvaro Mesa, que abriu a investigação culminando na resposta definitiva sobre o caso. O governo atual do Chile informou que solicitará investigações sumárias para determinar eventuais responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para a tomada de ações judiciais apropriadas.

O que permanece sem resposta pública são os motivos pessoais de Bernarda Vera para não estabelecer contato com sua filha ao longo de mais de 50 anos. Embora tivesse conhecimento de que sua filha a procurava, ela optou por manter distância e construir uma vida nova na Europa e na América do Sul. Seu filho Maximiliano indicou que ela deseja apenas viver em paz, sem revisitar o passado traumático da ditadura chilena.

Este caso representa um capítulo único na história da investigação sobre violações de direitos humanos no Chile, desafiando suposições estabelecidas e revelando a complexidade das circunstâncias vividas durante o regime de Pinochet. Também levanta questões importantes sobre responsabilidade institucional, documentação de histórico, e o direito à privacidade versus a demanda por verdade histórica.

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