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ANPD inicia fiscalização contra Discord

ANPD abre processo de fiscalização contra o Discord para investigar falhas na proteção de menores. Empresa será autuada por não cumprir normas de segurança.

ANPD inicia fiscalização contra Discord
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Processo de fiscalização iniciado pela ANPD

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) iniciou nesta sexta-feira um rigoroso processo de fiscalização contra a plataforma Discord, visando investigar possíveis deficiências no mecanismo de proteção a menores de idade. A abertura do processo ocorre em resposta a um trágico episódio envolvendo uma adolescente de 13 anos e visa verificar o cumprimento das obrigações estabelecidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital, que entrou em vigência em março de 2026.

A investigação da ANPD Discord concentra-se em avaliar se a empresa adotou adequadamente as medidas legais necessárias para proteger crianças e adolescentes de exposição a conteúdos prejudiciais. Este processo representa uma ação decisiva das autoridades brasileiras para garantir a segurança de menores nas plataformas digitais.

Pontos sob investigação pela agência

A ANPD concentrará seus esforços em quatro eixos principais de investigação. Primeiramente, examinarão possíveis falhas na adoção de medidas para prevenir e reduzir o risco de menores de 18 anos serem expostos a conteúdos ou contatos que incentivem, estimulem ou facilitem práticas de automutilação e suicídio.

Em segundo lugar, a agência investigará a ausência de mecanismos considerados eficazes para verificar adequadamente a idade dos usuários que acessam a plataforma. Esta questão é crucial para implementar controles parentais e restrições de conteúdo apropriadas para cada faixa etária.

Terceiro ponto de análise refere-se às possíveis falhas na retirada rápida e eficiente de conteúdos que violem as regras de proteção de crianças e adolescentes. Por fim, a ANPD apurará possíveis deficiências na comunicação de casos graves às autoridades responsáveis pela investigação de crimes.

Prazos e procedimentos legais

A empresa Discord dispõe de cinco dias úteis para apresentar à ANPD informações detalhadas sobre os mecanismos existentes em sua plataforma destinados a prevenir e combater violações graves contra crianças e adolescentes. Este prazo é fundamental para que a agência avalie a resposta da empresa e determine as próximas etapas da fiscalização.

Caso a ANPD constate irregularidades durante o processo, poderá determinar mudanças estruturais nas práticas operacionais da empresa. As sanções previstas no ECA Digital incluem multas que podem alcançar até R$ 50 milhões por infração identificada, representando uma consequência financeira significativa para a plataforma.

O trágico caso que motivou a investigação

A investigação foi desencadeada pela morte de uma menina de 13 anos em Naviraí, Mato Grosso do Sul, ocorrida no dia 22 de julho. De acordo com informações da Polícia Civil e do Ministério da Justiça, a adolescente foi coagida a tirar a própria vida durante uma transmissão ao vivo no Discord, que durou aproximadamente 45 minutos.

Este caso evidencia os perigos reais e concretos que menores enfrentam em plataformas de comunicação que não dispõem de proteção adequada. A transmissão ao vivo permitiu que múltiplos usuários assistissem e possivelmente participassem do evento, amplificando o caráter criminoso da ação.

Operação e apreensões realizadas

Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão que visavam seis integrantes do grupo investigado em diferentes estados do Brasil, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e o Ministério da Justiça realizaram descobertas preocupantes. Os agentes encontraram materiais contendo apologia ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil entre os suspeitos.

As investigações revelaram que o grupo utilizava tanto o Discord quanto o Telegram para atrair vítimas menores, disseminar discursos de ódio, promover a radicalização de jovens e estimular comportamentos violentos. Entre as vítimas identificadas nesta apuração, havia exclusivamente meninas, indicando um padrão sistemático de targeting.

Investigações complementares em andamento

A atuação da ANPD ocorre de maneira complementar às investigações de outros órgãos públicos. A Polícia Civil continua apurando os aspectos criminais do caso, enquanto o Ciberlab, laboratório da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) voltado especificamente à investigação de crimes cibernéticos, participa da investigação com expertise técnica especializada.

Compromissos firmados com a AGU

Além da fiscalização conduzida pela ANPD, representantes do Discord participaram de reunião nesta sexta-feira com integrantes da Advocacia-Geral da União (AGU) para discutir medidas urgentes de adequação da plataforma às normas brasileiras vigentes.

A empresa se comprometeu formalmente a apresentar, até a próxima segunda-feira (10 de janeiro), um plano abrangente contendo medidas concretas para ampliar significativamente a proteção dentro da plataforma, contemplando especialmente mulheres, crianças, adolescentes e animais domésticos contra possíveis abusos.

Durante a reunião, os representantes do Discord também assumiram obrigações relacionadas ao denominado dever de cuidado, que exige das plataformas digitais a adoção de medidas preventivas destinadas a reduzir riscos e proteger efetivamente seus usuários de conteúdos nocivos.

Perspectivas futuras

Integrantes da Advocacia-Geral da União avaliaram a reunião como produtiva, sinalizando esperança de que o Discord apresente soluções viáveis e implementáveis. A empresa deverá apresentar uma versão significativamente mais detalhada de como pretende cumprir as medidas específicas discutidas durante o encontro com representantes governamentais.

Este caso representa um ponto de inflexão importante no debate sobre responsabilidade das plataformas digitais na proteção de menores no Brasil, estabelecendo precedentes para futuras ações regulatórias contra empresas de tecnologia que não cumprem adequadamente suas obrigações legais.

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