Sertanejo contemporâneo: da raiz caipira ao agronejo
Descubra como a música sertaneja evoluiu de suas origens até dominar o mercado fonográfico brasileiro, passando por cinco fases distintas e transformações cultu...

A Evolução da Música Sertaneja no Brasil
A música sertaneja consolidou-se como o gênero mais ouvido no Brasil contemporâneo, fenômeno que vai muito além do entretenimento. A faixa "Eu Te Seguro", interpretada por Panda, lidera o ranking das reproduções nas plataformas de streaming, conforme levantamento da Pró-Música Brasil. Porém, este sertanejo atual pouco se assemelha àquele que emergiu nas gravações da virada dos anos 1920 para 1930. Trata-se de uma transformação estrutural que acompanhou a modernização brasileira e o deslocamento da população rural para os centros urbanos.
A música sertaneja representa mais que um gênero musical: funciona como espelho das transformações sociais do Brasil. Desde suas raízes nas expressões artísticas do campo até os palcos eletrônicos contemporâneos, o gênero incorporou valores, ritmos e narrativas de diversas culturas, numa lógica que o historiador Gustavo Alonso, professor da Universidade Federal de Pernambuco, define como "antropofagia cultural". Este processo constante de reinvenção mantém o gênero vivo e relevante através das décadas.
Os Primórdios: A Gravação Pioneira de 1929
O marco fundador da música sertaneja como produto de consumo em massa ocorreu em 1929, quando Cornélio Pires, jornalista e folclorista, orquestrou a gravação de "Jorginho do Sertão" pela dupla Mariano e Caçula. A iniciativa foi revolucionária: nenhuma gravadora acreditava no potencial comercial da música caipira, levando Pires a alugar um estúdio e arcar pessoalmente com os custos de prensagem. Este episódio representa, segundo a pesquisadora Anita Carvalho, o primeiro lançamento independente da história musical brasileira.
Mariano e Rubens da Silva, o "Caçula", eram irmãos provenientes de Piracicaba, no interior paulista, e interpretavam a moda de viola. A partir desta primeira gravação, a música caipira iniciou uma jornada de transformações que atravessaria quase um século, deixando pistas fundamentais para compreender a urbanização e modernização da sociedade brasileira.
Primeira Fase: Profissionalização e Reenraizamento (1929-1940)
A primeira fase da música sertaneja estendeu-se até a década de 1940 e caracterizou-se pela profissionalização dos cantores. A radiodifusão dessas músicas funcionou como mecanismo crucial para o reenraizamento de migrantes que abandonavam o campo em busca de oportunidades nas grandes cidades. Artistas como Raul Torres, paulista de Botucatu que inicialmente pretendia combinar a carreira musical com a farmácia, perceberam rapidamente o potencial econômico do segmento e dedicaram-se exclusivamente à música.
Torres consolidou-se na dupla com Florêncio, nome artístico de João Batista Pinto. Durante este período, a música caipira deixou de ser exclusivamente uma expressão de gente da roça e transformou-se em entretenimento regido pelas leis de oferta e demanda do mercado fonográfico. Estima-se que o gênero já dominava aproximadamente 40% do incipiente mercado fonográfico brasileiro naquela época.
Segunda Fase: A Hegemonia de Tonico & Tinoco
A segunda fase do sertanejo universitário iniciou-se com a difusão radiofônica em escala nacional, alcançando cidades pequenas e zonas rurais. A música que nascera no campo, migrou para a cidade cantando as reminiscências rurais, e retornava ao campo através das ondas radiofônicas numa dinâmica circular de consumo cultural.
O maior nome dessa fase foi indiscutivelmente a dupla Tonico & Tinoco, formada pelos irmãos João Salvador Perez e José Salvador Perez. Durante sua prolífica carreira, gravaram quase mil canções, lançaram 83 discos e realizaram mais de 40 mil apresentações. Estima-se que venderam aproximadamente 150 milhões de discos em todos os formatos, consolidando-se como a dupla que mais vendeu discos no mundo inteiro.
Esta dupla foi responsável por "furar a bolha" do gênero, permitindo que a música caipira fosse consumida por pessoas sem qualquer vínculo afetivo ou biográfico com o mundo rural. Durante esta fase, estabeleceu-se um padrão duradouro: a dupla, o violão e a viola substituíram os antigos instrumentos de choro, incorporando ritmos como catira e folia de reis, elementos intrinsecamente rurais que agora eram apresentados sob uma óptica nostálgica.
Se na primeira fase as narrativas retratavam o cotidiano rural, nesta segunda fase a vida campestre era comercializada através de uma lente saudosista. O público, já consolidado nas cidades, consumia histórias do campo como uma válvula de escape sentimental, um idealismo bucólico distante de sua realidade urbana quotidiana.
Terceira Fase: Modernização e Influências Internacionais
Nos anos 1950, o termo "música sertaneja" tornou-se hegemônico, substituindo as várias nomenclaturas anteriores como "música caipira", "música do interior" ou "música do sertão". Nesta década, o gênero incorporou elementos estrangeiros, particularmente da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana, mantendo sua característica antropofágica de absorver influências externas.
A terceira fase propriamente dita emergiu nos anos 1960, quando o Brasil já apresentava um processo consolidado de êxodo rural. O mercado fonográfico reconheceu que os novos ouvintes do gênero eram filhos de migrantes nascidos nas grandes cidades. Estes jovens possuíam uma educação tradicional no âmbito doméstico e uma educação moderna nas ruas, nas escolas e no ambiente de trabalho. Para este público híbrido, criou-se uma música sertaneja que fusionava elementos da Jovem Guarda com a tradição caipira.
A dupla Léo Canhoto & Robertinho foi a primeira expressão deste subgênero. Leonildo Sachi e José Simão Alves representaram uma tentativa de modernização mediante o uso de guitarras elétricas, elementos sonoros mexicanos e uma temática amorosa cada vez mais proeminente. Nesta fase, a música caipira deixou de ser cronista exclusiva do mundo rural e tornou-se também cronista do mundo urbano, expandindo seu escopo narrativo.
Quarta Fase: O Sertanejo Romântico dos Anos 1980
A guinada pop do sertanejo ocorreu principalmente nos anos 1980, impulsionada pelos esforços comerciais da gravadora Sony. Os executivos reconheceram que a música caipira poderia receber uma nova roupagem sonora e visual, originando a vertente denominada sertanejo romântico. Sucessos incontornáveis como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e João Paulo & Daniel surgiram neste contexto. Rick & Renner, embora posteriores, também integraram esta derivação romântica do gênero.
Foi durante este período que o sertanejo recebeu a aceitação definitiva pela grande mídia como o gênero mais popular do país, embora já dominasse as preferências há décadas. A incorporação do estilo brega foi marcante: caracterizava-se pelo amor exagerado, obsessivo, que à época era coloquialmente denominado "música de corno". Era uma era de jabá institucionalizado e de uma indústria ávida por novidades comercializáveis.
Quinta Fase: Sertanejo Universitário e Contemporaneidade
Na virada do século emergiu o atual estágio do sertanejo universitário, quando o gênero adquiriu características genuinamente pop. A música internacional tornou-se norteadora, com artistas atuando como astros pop que tocam música pop em língua portuguesa conforme sua interpretação estilística. A fusão crescente com estilos como pop, rock e axé intensificou-se, enquanto as temáticas das letras dialogavam crescentemente com o público jovem urbano.
As narrativas começaram a transitar entre o romantismo tradicional e a efemeridade das relações amorosas contemporâneas. Um desdobramento significativo foi o feminejo, movimento surgido há aproximadamente dez anos em que mulheres, historicamente minoritárias entre os artistas do gênero, tornaram-se as vozes mais ouvidas. Artistas como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo, Paula Mattos e Paula Fernandes emergiram como maiores expoentes.
O Agronejo: Subgênero Contemporâneo Polêmico
Mais recentemente, surgiu o denominado agronejo, subgênero que alimenta uma idolatria frequentemente não crítica e subserviente ao agronegócio. Artistas deste movimento defendem explicitamente a cultura do latifúndio e suas derivações econômicas. O fenômeno incorpora batidas eletrônicas, traços do pop e do funk ao sertanejo tradicional, frequentemente temático nas dimensões da ostentação e dos aspectos sensuais de relações amorosas efêmeras.
Pesquisadores apontam que boa parte do setor ligado ao agronejo mantém vínculos com problemas de corrupção, mediados por uma lógica de cachês milionários em shows patrocinados por prefeituras e empresas do agronegócio. Houve, segundo análises, uma apropriação deste subgênero pela extrema-direita política brasileira, utilizando-o como ferramenta de propagação ideológica.
Características Estruturais Persistentes
Apesar das transformações radicais, certos elementos estruturais da música sertaneja permaneceram como marcas identitárias. A tradição da dupla, embora menos predominante no sertanejo universitário onde prevalecem carreiras solo, origina-se dos primórdios das gravações caipiras. O canto em terças, técnica harmônica onde um integrante canta em uma nota enquanto outro canta em terça acima ou abaixo, constitui padrão desde as origens do gênero, anterior mesmo à apropriação pela indústria cultural.
A estrutura narrativa também persiste: a canção-romance e a canção-crônica que contam histórias permaneceram fundamentais. Povos não grafocêntricos historicamente utilizaram a música para registrar narrativas, preservando através do canto a integridade das histórias em contextos sem escrita. O sertanejo mantém desta herança as narrativas de fazenda, de vida no interior, de personagens que migraram para as capitais, além de temas universais como traição, jogo e bebida.
A Música Sertaneja como Espelho Social
O historiador Gustavo Alonso oferece uma perspectiva analítica reveladora: "A música sertaneja contemporânea é a música das cidades pequenas e médias. Grande parte desses artistas vieram de cidades pequenas e médias. O Brasil transformou-se em um país de cidades pequenas e médias." As grandes metrópoles cessaram seu crescimento inflacionário nos anos 1990, enquanto as cidades médias e pequenas passaram a crescer econômica e demograficamente.
Nesta dinâmica, a música sertaneja funciona como cronista de um Brasil que se reorganiza geograficamente. O gênero mantém sua característica antropofágica permanente, incorporando novas estéticas conforme cada geração o reinterpreta. Exemplos como "Ai Se Eu Te Pego" de Michel Teló, derivado do forró, coexistem com influências funk e reggaeton, consolidando o sertanejo como um grande guarda-chuva que abriga diversos gêneros populares sob sua nomenclatura.
Assim, a música sertaneja contemporânea não representa simplesmente um gênero musical em evolução, mas um fenômeno cultural que reflete as transformações econômicas, sociais e demográficas do Brasil moderno, perpetuando narrativas enquanto absorve constantemente novas formas expressivas de seu contexto.
