Sanções dos EUA a brasileiros geram temor do governo sobre impacto em bancos
Governo brasileiro manifesta preocupação com sanções americanas a dois brasileiros e três empresas. Teme efeitos secundários sobre instituições financeiras e co...

Governo expressa preocupação com sanções americanas a brasileiros
O Ministério da Justiça acompanha com atenção especial os possíveis impactos das sanções dos EUA a brasileiros investigados por possível ligação com organizações criminosas. A medida, anunciada pelo governo americano, atinge dois cidadãos brasileiros e três empresas nacionais, gerando inquietação entre autoridades federais sobre as consequências para o sistema financeiro do país.
Os indivíduos sancionados pelos Estados Unidos são Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Simultaneamente, o governo americano bloqueou os bens de três empresas brasileiras: Victory Trading Intermediação De Negócios Cobranças E Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções De Pagamentos Ltda e Wave Construções Inteligentes Ltda. Também foi incluída na lista a Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, registrada em Portugal.
Preocupação do governo com efeitos secundários
Segundo relatório da secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães Loula, a decisão americana havia sido previamente considerada um risco potencial. Isso ocorreu após a classificação, pelo governo dos EUA, do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Durante entrevista ao jornalismo brasileiro, a secretária destacou que a preocupação governamental transcende os indivíduos diretamente sancionados. A administração federal teme os denominados "efeitos secundários" sobre terceiros e instituições financeiras brasileiras. "Não defendemos criminosos. O que tememos é que essa espetacularização gere efeitos secundários sobre pessoas que não têm ligação com o crime e sobre instituições financeiras brasileiras", afirmou.
Mecanismo de bloqueio de ativos nos EUA
Conforme o comunicado oficial do governo americano, todos os bens das pessoas sancionadas localizados no território dos Estados Unidos serão imediatamente bloqueados e reportados ao Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, conhecido pela sigla OFAC. Qualquer empresa que pertença, direta ou indiretamente, em 50% ou mais às pessoas sancionadas também sofrerá bloqueio de seus ativos americanos.
Esse mecanismo vem sendo aplicado em outros países da região. Em junho de 2026, o governo americano anunciou sanções similares contra três importantes instituições financeiras mexicanas: CIBanco, Intercam Banco e a corretora Vector Casa de Bolsa. As instituições foram acusadas de facilitar operações de lavagem de dinheiro ligadas ao tráfico de drogas, e as medidas restringiram severamente seu acesso ao sistema financeiro americano.
Defesa da cooperação bilateral
A secretária nacional de Justiça enfatizou que o avanço das investigações conduzidas pelos Estados Unidos só foi possível graças ao trabalho realizado pelas autoridades brasileiras. Maria Rosa Guimarães Loula defendeu maior cooperação entre os dois países, argumentando que as informações compartilhadas pelo Brasil contribuíram significativamente para as apurações americanas.
"Não acreditamos em medidas unilaterais. Os Estados Unidos atuaram com base em informações e conceitos que saíram do Brasil. Se tivessem compartilhado mais informações conosco, poderíamos ajudá-los", declarou a secretária. Essa posição evidencia a estratégia governamental de buscar maior diálogo bilateral nas questões de segurança financeira.
Discordância entre autoridades brasileiras e americanas
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, refutou as acusações americanas contra os dois brasileiros sancionados. Segundo ele, Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira não possuem ligação com o PCC, contrariando a avaliação das autoridades dos Estados Unidos.
Segundo o governo americano, Shimada liderava, a partir de São Paulo, uma estrutura de lavagem de dinheiro que operava em conjunto com integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital radicados na Flórida. As autoridades americanas afirmam que o grupo movimentou mais de US$ 30 milhões em recursos de origem ilícita, utilizando criptomoedas para transferir valores provenientes do tráfico internacional de drogas.
Histórico de Victor Shimada
Victor foi preso preventivamente no Brasil em dezembro de 2024, no âmbito de investigações sobre lavagem de dinheiro relacionadas ao caso envolvendo o Corinthians. Em janeiro de 2025, passou um breve período em prisão domiciliar antes de ser liberado após obter habeas corpus mediante pagamento de fiança.
Recentemente, Victor foi condenado pela 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo a cinco anos de reclusão, em regime semiaberto, pelo crime de lavagem de dinheiro. Ele responde ao processo em liberdade, não utiliza mais tornozeleira eletrônica e permanece proibido de deixar o país.
Conexões financeiras investigadas
Segundo relatório da Polícia Civil de São Paulo, Victor Henrique de Oliveira Shimada aparece em uma cadeia financeira que conecta sua empresa à Wave Intermediações e à UJ Football Talent. A UJ foi citada na delação premiada de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach como empresa supostamente relacionada a Danilo Lima de Oliveira, conhecido como "Tripa", apontado pelo delator como integrante do PCC.
O relatório ressalta que o próprio Gritzbach surgiu em análises financeiras associadas à Wave, empresa que mantinha intensa movimentação com a Victory Trading. A investigação, porém, não afirma que Victor Shimada seja integrante do PCC, mas sustenta que ele estaria inserido em um fluxo financeiro que se cruza com pessoas e empresas citadas em apurações sobre a facção criminosa.
Situação de Stella Stefanie
Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, conforme informações americanas, é parente de Shimada e atuou como sua secretária. O governo norte-americano afirma ainda que ela atuou como intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro, fornecendo serviços logísticos essenciais para as operações de lavagem da rede. Diferentemente de Shimada, Stella não possui antecedentes criminais e não responde a processos judiciais no Brasil.
