Morre Ramiro Valdés, lenda da revolução cubana, aos 94 anos
Ramiro Valdés, comandante histórico da revolução cubana e ex-vice-presidente, faleceu aos 94 anos. Miguel Díaz-Canel confirmou a morte do revolucionário.

Falecimento de Ramiro Valdés marca fim de uma era revolucionária
Ramiro Valdés, uma das figuras mais emblemáticas da revolução cubana e ex-vice-presidente da nação caribenha, faleceu aos 94 anos, conforme comunicado oficial divulgado neste domingo (21) pelo presidente Miguel Díaz-Canel. A morte de Valdés representa o encerramento de um capítulo significativo da história política cubana contemporânea.
Em sua mensagem através da plataforma X, Díaz-Canel expressou o impacto emocional do desaparecimento do revolucionário, afirmando que a perda "dói profundamente, como a de um pai". O líder cubano encerrou seu comunicado com a frase icônica "Até a vitória, sempre, comandante!", refletindo a devoção que Valdés manteve aos princípios revolucionários ao longo de toda sua existência. A causa específica do falecimento não foi revelada pelas autoridades cubanas.
Trajetória de Ramiro Valdés na política cubana
Durante mais de seis décadas, Ramiro Valdés desempenhou papéis estratégicos no governo revolucionário cubano. Reconhecido como "Herói da República" e "Comandante da Revolução", o veterano político integrou o influente Bureau Político do Partido Comunista de Cuba até o ano de 2019, consolidando sua posição como um dos arquitetos do sistema político cubano moderno.
Entre suas diversas funções executivas, Valdés serviu como vice-presidente entre 2009 e 2019, além de ter ocupado importantes postos ministeriais, incluindo ministro do Interior, vice-ministro da Defesa e ministro da Informação e Comunicações. No momento de seu falecimento, exercia o cargo de vice-primeiro-ministro, demonstrando sua permanência ativa nas estruturas de governo até seus últimos dias.
Atuação recente e compromisso com a nação
Nos anos recentes, Ramiro Valdés manteve envolvimento direto nas questões críticas que afetavam a população cubana, particularmente nas questões energéticas do país. Com frequência, apresentava-se ao lado de Díaz-Canel usando uniforme militar, participando de campanhas publicamente conhecidas para conscientizar os cubanos sobre a necessidade de economia de energia elétrica e manutenção do fervor revolucionário, apesar dos desafios econômicos persistentes.
Os primórdios da revolução cubana com Ramiro Valdés
Nascido em 28 de abril de 1932, Ramiro Valdés era praticamente um adolescente quando começou seu trajeto revolucionário. Aos apenas 21 anos, participou ao lado de Fidel Castro do histórico ataque ao quartel de Moncada, episódio que deflagrou o levante de 1953 contra o governo autoritário de Fulgencio Batista e que é considerado o catalisador da revolução que transformaria Cuba.
Após ser exilado junto com Castro no território mexicano, Valdés figurou entre os 82 homens que embarcaram no iate Granma em 1956, retornando a Cuba para reacender a insurrição. Sua coragem foi comprovada pelo fato de ser um dos apenas 12 sobreviventes dessa perigosa travessia marítima que marcaria definitivamente a história revolucionária caribenha.
Ao lado de Fidel Castro e Che Guevara
Entre os companheiros de luta que sobreviveram àquela jornada perigosa encontravam-se personalidades centrais para o futuro de Cuba: Fidel Castro, que posteriormente faleceria em 2016 após décadas liderando a nação; seu irmão Raúl Castro, que assumiria a presidência após Fidel; e Ernesto "Che" Guevara, o revolucionário argentino que viria a perder a vida na Bolívia em 1967 durante uma tentativa de insurreição naquele país.
Valdés uniu-se aos irmãos Castro nas montuosas regiões da Sierra Maestra, localizada no leste cubano, desempenhando o papel crucial de vice-comandante sob as ordens de Guevara. Sua participação foi fundamental na decisiva Batalha de Santa Clara, confronto que ocorreu nos derradeiros momentos antes da fuga de Batista do país em 1º de janeiro de 1959, evento que consolidou o triunfo revolucionário.
Após a vitória, Valdés assumiu a liderança da agência de segurança estabelecida sob o novo governo de Fidel Castro, posicionando-se como um dos guardiões do sistema revolucionário que se implantava.
Legado e características pessoais de Ramiro Valdés
Assim como seus companheiros Fidel Castro e Che Guevara, Ramiro Valdés possuía um carisma particular que o distinguia no cenário político. Sua marca registrada incluía o uso constante do uniforme verde-oliva nos ambientes de poder e, notavelmente, um cavanhaque que manteve ao longo de toda sua vida adulta, seguindo o estilo de Leon Trótski, o influente revolucionário soviético.
Além de seu compromisso ideológico, Valdés era conhecido por sua disciplina pessoal extraordinária. Entusiasta do condicionamento físico, manteve uma rotina rigorosa de exercícios até alcançar os oitenta anos de idade, demonstrando uma dedicação ao bem-estar físico que contrastava com os desafios enfrentados pela população cubana.
Sua lealdade inabalável aos princípios revolucionários permaneceu constante ao longo de toda sua existência, inclusive durante os períodos mais desafiadores enfrentados por Cuba, quando a nação confrontou bloqueios econômicos e dificuldades extraordinárias.
Mensagem de Valdés sobre unidade revolucionária
Em 2014, durante a celebração do 61º aniversário do ataque ao Moncada, Valdés pronunciou palavras que sintetizavam sua filosofia política: "Não podemos esquecer que chegamos até aqui graças à unidade do povo e à confiança na revolução. Devemos preservar essa unidade acima de tudo, porque sabemos que essa luta ainda não terminou." Essa declaração refletia sua convicção profunda sobre a continuidade da missão revolucionária e a importância da coesão social para sustentá-la.
O falecimento de Ramiro Valdés encerra um capítulo extraordinário da história cubana contemporânea, deixando um legado que permanecerá associado aos eventos fundamentais que moldaram a nação caribenha durante mais de sessenta anos de transformação política, social e ideológica.
