Economista analisa frustração dos brasileiros sob governo Lula
Laura Carvalho explica desconexão entre crescimento econômico e insatisfação da população. Redes sociais amplificam desejos de consumo além do crescimento de re...

O Paradoxo Econômico Brasileiro
A economista que se dedica a entender a insatisfação dos brasileiros sob o governo Lula identifica um fenômeno contraditório que marca o terceiro mandato do presidente. Enquanto indicadores macroeconômicos mostram sinais positivos, a população percebe a situação de forma completamente distinta. O desemprego atingiu patamares mínimos históricos em 5,6% em maio de 2025, a economia cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, e 17,5 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2022 e 2024. Apesar desses avanços significativos, pesquisa Genial/Quaest de junho revelou que 44% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos doze meses, enquanto apenas 20% declaram que melhorou.
Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, dedica-se a compreender esse descolamento entre resultados econômicos e percepção social. Em artigo intitulado "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia", desenvolvido em coautoria com seu marido, o economista Guilherme Klein Martins, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a dupla identifica os principais fatores responsáveis por essa contradição.
Quatro Fatores Explicam o Descompasso
A análise de Carvalho apontou quatro elementos fundamentais para entender a insatisfação generalizada. O primeiro diz respeito aos efeitos persistentes da inflação sobre o bem-estar das famílias. O segundo refere-se à comparação com o ciclo excepcional de mobilidade social vivenciado nos anos 2000, durante os dois primeiros governos Lula, quando o crescimento econômico foi mais expressivo e inclusivo. O terceiro fator envolve a transformação dos desejos de consumo da população, amplificada significativamente pelas redes sociais. O quarto relaciona-se à frustração de gerações escolarizadas que não conseguem empregos compatíveis com sua formação educacional.
Quanto ao impacto das redes sociais sobre o comportamento de consumo, Carvalho oferece análise reveladora. "Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", observa. "Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média europeia ou um rico no seu país."
O Efeito Demonstração Global
Esse fenômeno representa mudança qualitativa em relação ao passado. Os desejos e aspirações se homogeneízam e globalizam de forma rápida e única na história, gerando sensação persistente de insatisfação. A frustração não se limita apenas aos bens de luxo, mas abrange o padrão de vida completo, incluindo viagens, lazer e qualidade do tempo livre. Muitos estudos científicos demonstram que pessoas se frustram ao visualizar a ostentação nas redes, mesmo quando essa ostentação reflete apenas o estilo de vida de outras pessoas.
Diferenças entre os Ciclos de Prosperidade
A comparação com os anos 2000 ilustra mudanças significativas na dinâmica social e econômica. Durante os governos Lula 1 e 2, a distribuição de renda na base da pirâmide combinada ao crescimento econômico expressivo incorporou vasta parcela da população ao mercado consumidor anteriormente excluída. Pessoas passaram a ter acesso a geladeira, viagens de avião e outros bens considerados luxuosos. Surgiu nova classe média satisfeita com esse padrão de consumo emergente.
Atualmente, a situação transformou-se fundamentalmente. A nova classe média, produto daquele ciclo anterior, já não se contenta com o mesmo padrão de consumo que outrora a satisfazia. As aspirações elevaram-se, as comparações globais tornaram-se possíveis, e a sensação de que o crescimento é insuficiente predomina mesmo quando indicadores macroeconômicos mostram expansão da economia.
A Questão da Desigualdade Estrutural
Carvalho enfatiza que a desigualdade no Brasil permanece entre as mais altas do mundo, conforme demonstrado pelo World Inequality Report 2026 divulgado em fins de 2025. Dados mostram que a desigualdade até cresceu entre 2014 e 2024. A característica marcante da desigualdade brasileira é a concentração muito elevada de renda e patrimônio no topo da pirâmide social. A desigualdade entre a base e o meio da pirâmide é relativamente pequena em comparação.
Os programas sociais, valorização do salário mínimo e dinamismo do mercado de trabalho conseguiram reduzir significativamente a desigualdade entre o meio e a base da pirâmide. Contudo, a desigualdade entre o topo e o meio permaneceu elevada ao longo das últimas décadas. Apenas no terceiro mandato do presidente Lula começou-se a atacar verdadeiramente essa característica estrutural, conforme evidenciado pela reforma do Imposto de Renda que estabeleceu alíquota mínima de 10% para os mais ricos.
Tributação de Riqueza como Prioridade
Para Carvalho, o debate sobre tributação precisa avançar além da tributação de renda para incluir formas de taxação de riqueza. A concentração de riqueza é ainda mais elevada que a de renda, perpetuando a desigualdade estrutural. Essa concentração também se perpetua no sistema político, pois a influência daqueles no topo de renda é desproporcionalmente elevada, atuando para preservar a estrutura atual de distribuição de recursos.
Um aspecto particularmente preocupante refere-se ao papel da dívida pública na perpetuação da desigualdade. O Estado brasileiro, mediante dívida pública elevada que paga juros muito altos, acaba transferindo renda para os mais ricos. Muitos detentores da dívida são pessoas de alto patrimônio que obtêm rendimentos elevados sem risco significativo. Isso significa que o governo, na prática, transfere renda para os segmentos mais ricos da população, fenômeno que Carvalho considera insuficientemente debatido.
Caminhos para um Novo Ciclo de Prosperidade
Para superar o quadro de insatisfação e gerar novo ciclo de prosperidade, Carvalho propõe agenda multifacetada. Primeiro, a economia precisa crescer muito mais e o nível de renda deve subir substancialmente. O PIB continua importando enormemente para a melhoria das condições de vida. Segundo, a renda deve ser redistributribuída, pois quanto maior a desigualdade, mais difícil é garantir que a maior parte da sociedade se beneficie do crescimento.
Terceiro, existe agenda completa de expansão dos serviços públicos. Nem toda inclusão ocorre mediante renda direta para as pessoas. Quando têm acesso a serviços públicos de maior qualidade, as pessoas precisam gastar menos de sua renda com serviços privados. Sistema de Saúde Único (SUS) mais eficiente elimina necessidade de planos de saúde. Educação pública de qualidade dispensa educação privada. Transporte público melhorado reduz tempo de deslocamento e melhora qualidade de vida, aproximando as pessoas do padrão de vida que desejam.
Desafios do Mercado de Trabalho
A questão das gerações escolarizadas que não encontram empregos compatíveis com sua formação representa desafio crescente. Os primeiros governos do PT expandiram significativamente o nível educacional, oferecendo acesso ao ensino superior para filhos de famílias que nunca tiveram essa oportunidade, através de programas como Fies e Prouni e pela expansão das universidades federais. Surgiu geração inteira de pessoas com diploma universitário que procura empregos em níveis de qualificação maiores que os de seus pais.
Paradoxalmente, os empregos gerados no período recente frequentemente envolvem salário mínimo em setores de serviços de baixa qualificação. Existe descompasso entre os empregos disponíveis e aqueles que as pessoas estão qualificadas para exercer. Nos últimos dez anos, aumentou muito o percentual de pessoas trabalhando em empregos que requerem nível educacional menor do que aquele que possuem. Essa situação demanda políticas que considerem a estrutura produtiva e identifiquem setores de competitividade para o Brasil.
Perspectivas Futuras
Carvalho dedica-se atualmente a elaborar novo livro que analise o ciclo de prosperidade econômica necessário para o país, seguindo o modelo de seu trabalho anterior "Valsa Brasileira". A obra procurará identificar a agenda de prosperidade que possa ajudar a superar os desafios contemporâneos, considerando os limites estruturais e as formas de implementar as agendas necessárias. Para a economista, compreender a insatisfação dos brasileiros sob governo Lula passa por reconhecer que indicadores macroeconômicos positivos não eliminam automaticamente as angústias relacionadas ao consumo aspiracional, comparações sociais amplificadas pelas redes digitais e expectativas de mobilidade social herdadas dos ciclos anteriores de crescimento.
