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Consumo cresce com renda alta e desemprego baixo no Brasil

Entenda por que o consumo das famílias segue forte no Brasil apesar dos juros altos. Renda, emprego e políticas públicas sustentam a economia.

Consumo cresce com renda alta e desemprego baixo no Brasil
Fonte: g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/21/por-que-o-consumo-segue-forte-mesmo-com-juros-altos.ghtml

Consumo das famílias cresce apesar do cenário desafiador

O consumo das famílias no Brasil apresenta um desempenho surpreendente que contraria as previsões econômicas mais pessimistas. Enquanto a taxa básica de juros atingiu patamares recordes nos últimos vinte anos, os gastos das famílias continuam avançando de forma consistente, revelando uma dinâmica econômica complexa e multifatorial que merece análise detalhada.

No primeiro trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou crescimento do consumo das famílias de 1% em relação ao trimestre anterior e de 1,7% comparado ao mesmo período do ano anterior. Esse resultado surpreendente contraria a expectativa de especialistas que previam desaceleração da atividade econômica neste período, evidenciando a resiliência do consumidor brasileiro diante de condições macroeconômicas adversas.

Mercado de trabalho aquecido sustenta o gasto familiar

O desempenho robusto do consumo das famílias encontra explicação principal na força do mercado de trabalho. A taxa de desemprego no trimestre encerrado em abril alcançou 5,8%, representando o menor índice para este período em toda a série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Simultaneamente, o rendimento real habitual dos trabalhadores atingiu R$ 3.732 no mesmo período, registrando aumento de 5,3% em comparação com um ano antes. Essa combinação de baixo desemprego e ganhos reais crescentes fornece a base fundamental para a manutenção do consumo das famílias em patamares elevados.

Conforme análise de Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE, as pessoas precisam permanecer inseridas no mercado de trabalho para sustentar seus padrões de consumo. Esse fator crítico faz com que o mercado reaja aos efeitos adversos, como a elevação da taxa de juros, demonstrando certa sustentabilidade nas estruturas econômicas.

Políticas de transferência de renda ampliam o poder de compra

Além da força do mercado laboral, diversas políticas públicas contribuem significativamente para manter o crescimento do consumo das famílias. O aumento real do salário mínimo, a expansão da faixa de isenção do Imposto de Renda para contribuintes que ganham até R$ 5 mil, e o alívio de dívidas promovido pelo programa Desenrola 2.0 constituem medidas que ampliaram o ganho de renda da população.

André Sacconato, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), destaca que essas transferências de renda direcionam recursos diretamente para consumo imediato, especialmente em categorias essenciais como alimentação, vestuário e serviços. O padrão de gastos reflete a prioridade das famílias em atender necessidades básicas enquanto mantêm alguma capacidade de consumo adicional.

Digitalização e expansão do setor de serviços

O crescimento do consumo das famílias também está intrinsecamente ligado à transformação digital da economia brasileira. O avanço significativo do setor de serviços encontra respaldo em áreas como tecnologia, internet e telefonia, setores que experimentam expansão contínua.

Conforme observação de Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), outros segmentos que impulsionam o consumo das famílias incluem bares, restaurantes e viagens. Esses setores demonstram recuperação notável pós-pandemia, refletindo mudanças nos padrões de consumo da população.

Particularmente interessante é a continuidade do crescimento de bens duráveis apesar dos juros elevados, categoria que convencionalmente sofre contração nesses ambientes. O consumo de automóveis importados, especialmente modelos híbridos e elétricos, registra aumento expressivo, enquanto bens não duráveis mostram crescimento concentrado em itens essenciais.

Endividamento cresce e preocupa especialistas

Apesar dos sinais positivos do consumo das famílias, existe uma sombra que projeta-se sobre a economia: o nível crescente de endividamento. Dados recentes do Banco Central indicam que o indicador de endividamento das famílias alcançou 49,8% em março, representando aumento de 0,8 ponto percentual em relação ao mesmo mês de 2025.

André Sacconato alerta que a classe média enfrenta pressão crescente, sustentando seu consumo através do crédito, que apresenta elevação contínua em suas taxas. Essa dinâmica cria um ciclo potencialmente insustentável onde o aumento do consumo das famílias depende cada vez mais de endividamento crescente.

A inadimplência também apresenta trajetória preocupante, com aumento importante em praticamente todas as modalidades de crédito para pessoas físicas. Nas linhas com recursos livres, onde taxas e condições são estabelecidas pelos bancos, o calote chegou a 7,2%, com aumento de 1,2 ponto percentual em relação a abril de 2025.

Sustentabilidade do modelo econômico em questão

Sacconato argumenta que o modelo econômico atual, baseado fundamentalmente em transferências de renda, apresenta limitações de sustentabilidade. Na avaliação do especialista, esse modelo eventualmente aumenta o endividamento e a inadimplência, criando pressão para manter juros elevados por períodos mais prolongados.

O paradoxo do cenário atual reside na aparente contradição entre crescimento econômico e vulnerabilidade financeira das famílias. O consumo das famílias continua expandindo, mas essa expansão ocorre cada vez mais sustentada por endividamento crescente em um ambiente de juros altos.

Perspectivas para o consumo familiar em 2026

Apesar das preocupações com endividamento e inadimplência, especialistas mantêm perspectiva relativamente otimista para o consumo das famílias neste ano. A projeção do FGV Ibre sugere crescimento do consumo das famílias de 2,2% em 2026, superando o crescimento de 1,3% registrado em 2025.

Juliana Trece ressalta que o Banco Central deve adotar abordagem cada vez mais cautelosa nos cortes de taxa de juros. O mercado de trabalho continuará fornecendo suporte ao consumo das famílias, e como trata-se de ano eleitoral, é provável que novos estímulos econômicos surjam através de programas adicionais de transferência de renda, potencialmente sustentando o crescimento do consumo das famílias nos próximos trimestres.

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